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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Entrevista de Luís Garra ao Jornal do Fundão

“Não estamos condenados a este bailinho PS-PSD”
 
Luís Garra volta, dez anos depois, a dar a cara pela CDU como cabeça de lista pelo círculo eleitoral de Castelo Branco, distrito que há muito se habituou a vê-lo em acção, encabeçando acções contra o encerramento de unidades fabris e despedimento de trabalhadores. O coordenador da União de Sindicatos de Castelo Branco e candidato a deputado em grande entrevista
JORNAL DO FUNDÃO – O PCP sozinho ou liderando as coligações APU e CDU, nunca conseguiu eleger um deputado pelo círculo eleitoral de Castelo Branco. O que pensa que poderá vir a ser diferente este ano para que possa assegurar a eleição?
LUÍS GARRA – Disse, e disse bem, que a CDU nunca elegeu um deputado e convém recordar que já esteve a 79 votos de eleger um deputado pelo distrito de Castelo Branco. E há, neste momento, elementos que introduzem factores de confiança que creio que importará serem aqui realçados. Desde logo, o facto de eu ter mais dez anos em relação à última vez em que fui candidato. Tenho mais experiência, mais conhecimento da realidade...
E é mais popular?
Não é nesse sentido que me coloco...
Visibilidade?
Nem é uma questão de visibilidade. Sinto-me melhor preparado para exercer essa função e creio que o eleitorado também percebe isso. Depois há outro elemento: os eleitos da CDU, e particularmente eu, estamos cá todos os dias, damos a cara nos bons e nos maus momentos das pessoas. Estamos cá e as pessoas sabem que podem contar connosco, que podem falar connosco, fazerem-nos perguntas e sabem que têm uma resposta. Pode não ser a melhor resposta, mas têm-na, não há um virar de costas às populações. Depois, há um quadro que é extremamente claro: o PS apresenta um não-candidato porque ele já foi eleito várias vezes deputado pelo distrito e José Sócrates abandonou o distrito, lançou-o na desertificação, no abandono, no envelhecimento e as pessoas sabem que não é pelo facto de terem um Primeiro-Ministro, que até é da Covilhã, que o distrito melhorou, que as condições de vida das populações melhoraram.
Em relação a outros candidatos...
Por outro lado, o PSD apresenta um candidato que não é do distrito, não conhece o distrito, não sabe o que é o distrito, não sente o distrito. É um pará-quedista que não é candidato para resolver os problemas das pessoas. É candidato para seguir a estratégia da líder que o nomeou. E depois temos outros candidatos. Aqui há dias uma pessoa com quem falava disse-me: “Eu gosto muito do Louçã”. E eu perguntei-lhe: “Mas você sabe quem é o candidato do Bloco de Esquerda por Castelo Branco?” “É o Francisco Louçã”. Não é. O Francisco Louçã é candidato por Lisboa, os votos das pessoas do distrito de Castelo Branco não contam para eleger Francisco Louçã. Mas quando pergunto se sabem qual é o candidato do BE, não sabem.
Mas não acha que essa é uma visão generalizada?
Mas o que estou a tentar dizer é, primeiro, não estamos a fazer eleições para Primeiro-Ministro, estamos a eleger deputados. Serão eles, depois que irão eleger o programa de governo, o governo e o seu Primeiro-Ministro. Vão eleger deputados do distrito de Castelo Branco.
A ideia da necessidade de uma ruptura com as políticas protagonizadas pelos partidos no poder nos últimos 30 anos não tem passado. E a prova é que a CDU não tem conseguido chegar aoParlamento por Castelo Branco. Não lhe parece que era preciso incluir algum dado novo, algo mais, para que pudesse ter lugar na Assembleia da República (AR)?
Entendo das suas palavras uma coisa muito positiva: o sentimento de que era importante que eu fosse eleito. Repare que ouço isso em muitos lados por onde passo. Não há proprietários de votos. O PS e o PSD têm uma concepção de que isto se vai decidir a dois, o povo é um povo amorfo, o povo não tem forma de pensar, aquilo que importa é esta bipolarização, a alternância entre PS e PSD e PSD e PS, em que sai um e entra o outro. A questão de fundo é as pessoas perceberem que não estamos condenados a esta alternância e a este bailinho que, no fundo, não resolve os problemas. Diz-me que a mensagem não passa, mas estamos a fazer um esforço para que passe. Agora, é evidente que os meios são desproporcionados.
Para chegar à AR, ainda para mais por um distrito que elege apenas quatro deputados, precisa crescer eleitoralmente – e muito. Onde é que pensa ir buscar os votos? Há uma luta muito particular entre a CDU e o BE pelos votos do eleitorado descontente à esquerda do PS?
Não. Repare, quem está preocupado com o BE é mais o PS do que propriamente a CDU. Nas últimas eleições para o Parlamento Europeu (PE), como sabe, a CDU cresceu. No distrito de Castelo Branco teve mais votos para o PE do que tinha tido há quatro anos para a AR. Não é apenas um crescimento percentual, é também um crescimento em número de votos.
Mas o BE também subiu...
Mas depois quem é que perde muitos votos? É o PS, em que uma parte deles vai para a abstenção – estamos a falar do PE –, outra parte terá vindo para o PCP, porque senão não cresceria, e uma parte foi para o BE. Nós não temos qualquer concorrência com o BE por uma razão muito simples: não está em causa se o BE é ou não de esquerda. Essa questão não se discute hoje. O problema é se é a força consequente que o PCP é. E a esse nível pensamos que não é. Que não é o facto de introduzir nuances novas no discurso que introduz consistência ideológica num projecto. É uma amálgama de ideias e depois tem esta função, de facto, que não é de tirar votos ao PCP – é de impedir que o PCP cresça mais. E aí creio que isso é prejudicial para a alternativa.
Acha que o BE é mais eficaz a captar votos de descontentes com o PS do que a CDU?
O voto na CDU é um voto difícil...
...ainda há um ressentimento histórico entre o PCP e o PS?
Eu li a entrevista do cabeça-de-lista do BE ao Jornal do Fundão e à Rádio Jornal do Fundão e há uma coisa que muito sinceramente não gostei. O Louçã, de certeza absoluta, não se revê naquele tipo de afirmação porque é mentirosa. E é feio um professor mentir porque dá mau exemplo aos alunos. Dizer que não há diálogo à esquerda porque o PCP não quer é uma falácia. Aliás, quem assistiu ao debate entre Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã facilmente percebeu que há ali um esforço consistente de procurar aquilo que é comum e deixar de lado aquilo que os separa. E, portanto, acho que foi de mau tom, foi grosseiro, até, ter introduzido um elemento que, ainda por cima, não é rigoroso, não é verdadeiro, é mentiroso. Nunca houve recusa nenhuma do PCP ao diálogo com o BE e se até quisermos fazer uma retrospectiva histórica e breve verificaremos que quem teve um processo de exclusão do PCP no chamado diálogo das esquerdas foi o BE que organizou aqueles encontros do Trindade, etc., excluindo o PCP. Mas isso serve de ressentimento? Não serve absolutamente nada.
Qual é a primeira medida que urge implementar no distrito, nomeadamente no sector do emprego?
Todas. Não há uma medida. Repare, isolar, neste momento, as políticas é o pior erro que pode acontecer. As medidas do emprego têm que estar articuladas com as políticas económicas, com as políticas do desenvolvimento. Têm que estar simultaneamente articuladas com políticas de valorização do trabalho e, depois, têm que ter uma dimensão social, onde os aspectos da educação, do ensino, da saúde, da segurança social, da justiça estejam perfeitamente interligadas. Tem que estar interligadas, também, com a garantia dos direitos dos cidadãos. Perguntar-me-á para o plano do emprego, que políticas económicas activas? Que se privilegie o aparelho produtivo. Esta é a questão central do desenvolvimento.
E como é que isso se alcança?
Com investimento...
... com investimento, com redução de impostos, com políticas diferenciadas?
O mais fácil neste quadro é propor o abaixamento de impostos. O PS propôs há quatro anos baixar os impostos e quando lá chegou aumentou-os. O problema, mais do que estar aqui a decidir – até porque essa não é uma questão que o deputado do distrito de Castelo Branco tenha que decidir – tem que haver discriminação positiva do interior, tem que haver uma política de solidariedade do todo nacional para com o interior, onde se inclui o distrito de Castelo Branco. Isso sim. Se é através da redução de impostos, se é através da redução da taxa do IVA para as micro, pequenas e médias empresas, para os agricultores, por exemplo... são tudo medidas que podem e devem ser articuladas. Agora o problema do emprego tem a ver com esta orientação central: aparelho produtivo. Não é preciso mais dinheiro, mas basta que haja uma reorientação dos investimentos. Aquilo que se está a fazer com os apoios cegos ao sector financeiro, aquilo que se está a perder com as offshores é um escândalo. Era suficiente para canalizar investimentos dirigidos ao interior e ao aparelho produtivo. Tem que haver opções políticas. Estamos cá para servir quem? Os mais desfavorecidos, os que mais precisam ou os grandes senhores do capital, os que mandam em tudo?
É sindicalista e disso não nos podemos abstrair. Qual é a sua previsão do desemprego que podemos ter no distrito no final do ano?
Gostaria de ser um anunciador de boas notícias, mas quero-lhe dizer, infelizmente, que temo que se vá agravar mais o desemprego, que haja situações ainda muito complicadas.
Nesta altura serão dez mil os desempregados?
Com todos os abatimentos, com todas as falsificações de números, manipulações de números, não conseguem fugir dessa referência. E, muito sinceramente, creio que ainda há alguns factores de preocupação quanto ao seu agravamento. Tenho vivido situações que, reconhecerão, são muito penalizadoras para nós próprios. Eu vejo pessoas a chorar e choram porque querem defender as empresas, não conseguem viver porque não têm salário; têm que comprar os livros para os filhos, porque têm que pagar a casa, o carro. São situações que me deixam profundamente abalado e triste.

Nuno Francisco e Dulce Gabriel


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